Martha Amorim
A natureza da saudades
A história contada por lembranças antigas
Por: Lillian Barbieiri e Martha Amorim
A saudade pode vir de várias formas, a mais comum delas é uma recordação simples, que arranca um sorriso dos lábios de quem conta uma história antiga. Esta única palavra, pode desencadear em muitos outros sentimentos, que às vezes fica difícil entendê-los e decifrá-los. Apesar de desagradável, é um privilégio manter as lembranças até o final da vida, já que com o passar dos anos, elas se dissipam.
Para Maria Aparecida Baraglio, 84 anos, saudade é algo que lhe remete a juventude. “Sinto saudades de quando eu era mais nova, jovem. Quando eu estudava na fazenda e ia de trem até lá, para depois me buscarem de trator”, recorda-se. Denise Pasquale de 75 anos, conta que tem saudades da época que sua avó era viva, pois naquele tempo nem todos trabalhavam e sem muito esforço, aconteciam reuniões de família.
As vezes, sem muito motivo, uma ação nos faz relembrar de uma época boa e muito bem vivida, que tem seus defeitos, mas também grandes qualidades. A saudade é algo tão amplo que não é sentida apenas pela ausência de alguém, e sim de um tempo, um momento, um período. Por isso, por não ser um sentimento único, pode ser entendida como lembrança alegre e triste ao mesmo tempo, de algo vivido ou uma pessoa importante e marcante em nossa vida, como explica a psicóloga Cristiane Ulbrich.
Aos olhos da psicologia, sentir saudade é algo natural do ser humano, que faz parte do processo social e emocional, por isso, o sentimento em si não é considerado uma patologia. De acordo com a neuropsicóloga Anne Tarine "A saudade envolve reações químicas do organismo, assim como qualquer emoção ou sentimento. Ela está diretamente relacionada às recordações. Portanto, só seremos capazes de sentir saudade de algo que armazenamos mnemonicamente."
O termo saudade não tem uma tradução literal em todas as línguas, sendo restrito o número de pesquisas sobre o assunto. Mas no Brasil, a saudade é atribuída para tantas coisas e pessoas, que a palavra, se torna uma variável a tantos outros sentimentos.
Cristiane Ulbrich explica de uma maneira fácil o termo “Apenas pergunte se a pessoa já sentiu vontade de chorar e sorrir ao mesmo tempo ao lembrar de alguém, se já sentiu uma vontade louca de abraçar quem não está perto na hora. Então apenas diga que o nome disso é saudade.”
Podem haver casos de depressão por saudade, mas não por este único motivo. "Todo processo de perda envolve uma elaboração de luto. Ou seja, a pessoa necessita de um tempo para lidar com a ausência do objeto de amor e desejo. Porém, quando esse processo se arrasta por um maior tempo, pode haver uma patologia envolvida.", exemplifica a Anne Tarine.
O ciclo da vida pode ser prolongado por muitos anos, de diversas maneiras, mas enganá-lo ainda não é possível, portanto a morte é algo inevitável, tal como a perda. Ficar de luto após perder alguém, é completamente compreensivo, tanto que existem cinco fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. O problema se arrasta, quando a pessoa não consegue chegar na fase da aceitação e se prende na depressão, sendo impedida de entender e superar o fato de que a pessoa amada se foi. "Na depressão, a percepção de perda é muito comum, mesmo que a pessoa não consiga justificá-la.", informa Anne Tarine.
Sentir saudades, é quase que uma rotina do ser humano, todo dia acontece algo que nos remete à tantas lembranças boas. Cleomar Amorim Mendonça de 81 anos, comenta com um sorriso no rosto que sente saudades de vários momentos de sua vida, "Do meu casamento, do nascimento e crescimento dos meus filhos, bem como de suas formaturas, assim como de seus casamentos e do nascimento dos netos."
O sentimento de modo geral não é tão ruim assim, mostra que nossas lembranças ainda estão ativas. Às vezes dói lembrar da ausência de uma pessoa querida ou pensar em um tempo que não volta mais, mas relembrar do que viveu tão intensamente é uma dádiva que poucos tem.
Portanto, a saudade é um sentimento que te leva para o passado de novo, te faz reviver, os momentos que mais foram aproveitados. “Sentimento universal e indivisível, dificilmente traduzível, a saudade compara-se a uma melancolia específica, fora do tempo.” – frase da exposição A Arte da Lembrança – A saudade na fotografia brasileira.
23.03.15

Uma avenida musical
Por: Lillian Barbieiri e Martha Amorim
Além dos negócios, a Avenida Paulista é conhecida pelo seu expoente cultural e musical. Ao caminhar por esta, é possível em um único dia ouvir diversos estilos de música, entre eles Rock, Jazz e MPB, são os mais populares entre os músicos frequentadores da calçada movimentada. Há desde bandas profissionais, com muitos anos de carreira, até as iniciantes que ainda estão conhecendo e explorando a sua futura área de trabalho.
“Nós nos conhecemos na comunidade do orkut Guitar Hero Brasil. Íamos aos campeonatos do jogo, aonde de fato nos conhecemos, em 2008. A banda foi formada em 2012” relembra Yuri Pompeu vocalista e fundador da banda GHB, que ganhou nome em homenagem à comunidade. Compostos por quatro integrantes, começaram a se apresentar na Avenida Paulista tocando covers dos The Beatles, com o objetivo de um dia serem reconhecidos por suas próprias composições.
Há também bandas de outros Estados que vieram para São Paulo tentar expandir seu público, um exemplo é a banda Picanha de Chernobill, que começou a sua carreira em 2009 e pouco depois lançaram seu primeiro CD, Velho Bar. “A gente veio no final de 2012 para cá” comenta o guitarrista Chico Rigo e ainda complementa “tu chega aqui e tu vê que é a mesma coisa, a galera é receptiva. São Paulo é o centro do País, dá para circularmos para os outros Estados. Lá no Rio Grande do Sul, é lá no Sul, lá na ponta. Então estando aqui, fica mais fácil a visualização de TV, rádio e porque tem mais gente, então é mais fácil viver aqui, do que lá.”
Por ser um dos grandes centros comerciais da cidade de São Paulo, a Paulista é bastante movimentada em qualquer hora do dia, proporcionando uma grande e diversificada plateia para os músicos que costumam divulgar sua música e talento. “Esta possibilidade de tocar na rua, aqui para nós, é para ampliar o nosso público, para podermos viver da música, para não precisar ter outro emprego, por isso que a gente faz todos os dias, porque vai somando, é uma galera, então a gente tem que ficar tocando todos os dias para pagar as contas e para poder viver” comenta Chico Rigo.
Além da música em si, as bandas costumam inovar um pouco em suas apresentações. Algumas usam a simpatia, a dança e a simplicidade para conquistar o povo que caminha nas calçadas da avenida “Nós adoramos a interação do público com a banda. Deixa tudo mais leve e divertido pra todo mundo. Tem dias que dedico músicas para alguém ou levo doces, como bala e jogo na plateia.” Conta Yuri Pompeu. Outras usam de apetrechos, objetos e até mesmo um mascote da banda para atrair quem passa. “É legal ter um chamativo, a música nunca foi só música, a gente traz os tapetes, tenta fazer a parte visual ser atrativa também. Para a galera ver que não é só um pessoal tocando, que a gente se preocupa em fazer um palco legal e ter um visual bonito, porque faz parte, a música é isso.” Acrescenta Chico.
Carolina Lemmi, 19 anos, é uma das fãs da banda Picanha de Chernobill, e confessa que não consegue parar por alguns minutos quando os encontra, mesmo que esteja atrasada para a faculdade, para ouvir pelo menos uma das músicas. “A energia que eles passam é muito boa, melhora o dia de qualquer um que escuta a música”, diz ela entre uma música e outra, sem tirar a atenção dos músicos. Outro fã da banda é Gabriel Medeiros, 23 anos, que normalmente encontra os Picanha quando passa pelo centro, “eu curto muito a banda, eles fazem um som diferente e muito legal”.
17.05.15
Implantação de teatros nos shoppings paulistas
A lei Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo é colocada em vigor após doze anos
Por: Fernanda Ramos e Martha Amorim
De acordo com a lei municipal nº 13279 de 8 de janeiro de 2002, criada por Marta Suplicy, todo novo centro comercial com mais de 30 mil metros quadrados é obrigado a ter pelo menos um teatro e um cinema. De acordo com o Artigo 1º, “fica instituído o "Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo", vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, com o objetivo de apoiar a manutenção e criação de projetos de trabalho continuado de pesquisa e produção teatral visando o desenvolvimento do teatro e o melhor acesso da população ao mesmo”. A regra foi discutida desde 1991, porém a lei só foi criada em 2002.
As casas mais antigas, como o Teatro Bradesco no Shopping Bourbon, localizado no bairro da Pompeia, o Teatro das Artes no Shopping Eldorado em Pinheiros, o Teatro Folha no Shopping Pátio Higienópolis, localizado no bairro do Higienópolis e o Teatro Frei Caneca do Shopping Frei Caneca, na Consolação, já são alguns dos principais palcos da cidade. Partindo desta lei, estão se criando várias casas teatrais dentro dos shoppings, o que além de trazer uma pitada de cultura e lazer, também produz facilidades, como estacionamento, segurança, estrutura de acesso e diversos serviços.
Recentemente foi inaugurado o Theatro NET São Paulo, que funciona há três meses dentro do Shopping Vila Olímpia, e tem capacidade para mais de 700 pessoas. A gerente do teatro, Claudia Goes nos conta que apesar da lei, o shopping já tinha a ambição de fazê-lo. “A chegada do teatro foi uma dádiva, aumentou o público do shopping que há algum tempo estava morto”, complementa Claudia. Já no bairro do Itaim Bibi, o Shopping JK Iguatemi recebeu o Teatro da Livraria da Vila, dentro da livraria, comportando 125 lugares. Mitsuko, 54 anos, frequentadora de teatros, nunca foi ao Teatro Folha no Shopping Higienópolis, mas queria muito conhecer. Concorda com a lei e acha muito interessante, “o maior benefício de fazer o teatro dentro do Shopping é que dá pra parar o carro no estacionamento e ficar mais à vontade.” Espera-se que sejam feitos outros anfiteatros que até agora não têm previsão de inauguração, como no Shopping Vila Lobos, Jardim Sul, Metrô Santa Cruz, Morumbi, Pátio Paulista, entre outros.
Há especulações de que o dinheiro disponibilizado tem sido desviado para uso em infraestrutura. De acordo com a advogada Thais Bohn de Camargo e Silva, o governo disponibiliza uma ajuda de custo para a instalação dos teatros, mas há controle. “Tudo é fiscalizado pela secretaria municipal de cultura. Precisa apresentar um projeto de todo o plano da obra, este não pode passar de dois. Só recebe o dinheiro da primeira etapa, uma vez que comprovar que esta foi feita”. Ela ainda explica que caso a empresa não cumpra com a primeira parte do projeto, já está sujeita a uma ação penal de improbidade administrativa, porque está recebendo um benefício do governo e tendo um enriquecimento ilícito. Se o Shopping mente sobre as instalações dos teatros, tem que pagar a quantia que recebeu, mais correção monetária, além de ficar proibido de contratar ou receber qualquer benefício do município por cinco anos. Consequentemente, quando o Shopping for fazer o verdadeiro teatro, terá de fazer com o dinheiro deles, sem ajuda nenhuma do governo.
A lei da fomentação ao Teatro foi criada em 2002, mas só agora está sendo colocada em prática. A advogada comenta que um dos porquês é a questão da denotação orçamentária, que são R$ 6 milhões destinados a isso e o dinheiro tem que vir de algum lugar. Outra razão, na sua opinião é a tendência na política geral de governantes, que quando muda a gestão, o partido opositor abandona projetos da gestão anterior.
O intuito da lei foi entre outros, promover o entretenimento cultural paulista e diversificar as opções de lazer para a população. Esta, colocada em prática, fez com que os shoppings na cidade de São Paulo corressem atrás de seus futuros estabelecimentos teatrais, trazendo um novo público ao espaço.
11.11.14
Palhaço
Matéria produzida para aula de História da Arte para a revista do MAM sobre a exposição Museu Dançante
Por: Martha Amorim
A obra Palhaço com buzina reta - monte de irônicos, da artista Laura Lima é feita por 3 ou 4 performers que ficam no museu todo os dias, cada um trabalha mais ou menos 4 horas dentro da fantasia, intercalando e fazendo pausas a cada 1 hora. O trabalho dessas pessoas é ficar completamente imóvel dentro da fantasia com uma única função, apertar a buzina.
A ideia do palhaço é dar um susto. A artista costuma trabalhar bastante com performances, este foi feito para ser feio, completamente assustador, com o intuito de extrair o estereótipo do palhaço feliz, carismático e amado. Ele foi criado para parecer que foi largado na exposição, esquecido, tanto que a obra não está no centro da sala ou com uma faixa branca ao seu redor, esta no chão, encostado na parede, deixado de lado.
As pessoas costumam ignorar o feio, passar reto do que dá medo e esta é a ideia, chegar perto e ver o quão aterrorizante o palhaço é, e com isso ignora-lo. Então quando você for embora, ele aperta a buzina. E de alguma forma você é obrigado a olhar para trás.
A própria artista fala que isso é uma analogia para as coisas da nossa vida, que a gente tenta esquecer, jogar fora, se livrar e não conseguimos de jeito nenhum. É como se de alguma forma, aquilo que você não quer mais ter contato, quer largar, abandonar, continua aparecendo na sua vida. É o passado te retardando, não deixando você seguir com sua vida, virar a página e viver um novo capítulo. O palhaço pode significar uma pessoa, uma lembrança, uma memória, um sentimento, um medo, uma mentira, qualquer coisa que te faz voltar, que não te deixa se libertar. E a buzina é esse voltar, esse obstáculo que te chama de volta, para reviver o pesadelo.
Então não é só um palhaço jogado no museu. É uma obra que te persegue, que pode ser qualquer coisa que entre no contexto da sua vida. Que te lembre o que te faz com todas as suas forças, tentar esquecer. É uma arte que mexe com o movimento da sua vida, a gravidade dos sentidos.
19.05.15

Ricardo Darín, um valor reconhecido
O engajamento do ator não só com sua carreira
Matéria publicada no site do jornalismo Sem Fronteiras
Por: Martha Amorim
Origem e início da carreira
De uma família de artistas, nasceu o ator que é a personalidade mais importante do entretenimento argentino da última década, Ricardo Darín. O portenho nasceu no dia 16 de janeiro de 1957 em Buenos Aires, Argentina. Aos dez anos teve sua estreia no teatro, uma peça que trabalhou ao lado de seus pais, “Ricardo Darín y Renée Roxana". Independente de ter iniciado sua carreira cedo, Darín não possui uma formação acadêmica em teatro. Aos dezesseis anos teve sua primeira aparição na televisão argentina, no programa “Alta Comedia” e “Estacion Retiro”, dirigido por Alberto Migré.
Após várias apresentações nas populares novelas argentinas de Migré, na década de 80, Darín atingiu um número significativo de popularidade, como parte dos “Galancitos”, um grupo de jovens atores que tiveram seu sucesso da televisão ao teatro. Os Galancitos conquistaram milhares de fãs por toda a Argentina, com isso Darín foi associado à figura de galã, mas contra todo este estereotipo, nos anos 90 o portenho alcança seu maior sucesso televisivo em um seriado de comédia “Mi cuñado”.
Filmes
É no mínimo um filme por ano que sai nos cinemas protagonizado pela estrela argentina, encantando e surpreendendo os amantes cinematográficos. Darín chegou a um ponto de sua carreira que atrai pessoas para ver um filme apenas por sua participação. Afinal, sabem que não vão se arrepender.
O portenho conquistou os brasileiros com os filmes “Nove Rainhas”, de Fabián Biellinsky, “O Filho da Noiva” e “O Segredo dos Seus Olhos”, ambos de Juan José Campanella. Um dos últimos filmes a ser lançado foi “Relatos Selvagens”, de Damián Szifrón e foi o maior sucesso na Argentina, tornou-se o mais visto do ano.
No decorrer de sua carreira, Ricardo Darín ganhou 24 prêmios e foi nomeado 26 vezes. Uma única vez foi a entrega do Oscar em Hollywood e declarou não ter gostado da experiência e por isso, não voltou mais. Quando o filme “O Segredo dos Seus Olhos” ganhou o Oscar de Melhor Filme e venceu o Prêmio Goya de melhor filme do ano, optou por assistir a premiação no conforto da sua casa, ao lado de sua família, abrindo mão do glamour.
Família
Casal Kirchner que nada, o casal mais adorado e louvado pelos argentinos é Ricardo Darín e Florencia Bas, que estão juntos há 26 anos e possuem dois filhos, Chico (26 anos) e Clara. Em 1999 o casal chocou um pouco a população ao passarem por uma breve separação. O carinho e amor por estes dois é tão grande e intenso, que mesmo separados temporiamente, Bas em momento algum abandonou Darín, o ajudou a construir um novo lar e sua relação com os filhos. Almoçavam todos juntos, como a família que são, apenas dormindo em casas diferentes. Foi tudo de modo pacífico. Após um tempo de mais ou menos dois anos, conseguiram superar o abismo que sua relação passou e recuperaram o amor e o valor do relacionamento.
O portenho é um homem de família, dedica-se completamente para fornecer a felicidade de seus filhos e mulher, o seu mundo gira em torno deles. Na produção dos filmes, Darín as vezes tem que se locomover para outras cidades ou países, como por exemplo quando foi para a Espanha filmar Nove Rainhas (Nueve Reinas), neste período de filmagem, o ator passava por um momento de certa amargura, pois sente uma saudade muito grande de sua família. Quando os filhos estão de férias escolares fazem companhia para pai na viagem, mas quando estão estudando, sua mulher o acompanha por um tempo.
Quando os filhos eram menores, a preocupação de estar longe era menor, pois ainda eram muito crianças para saberem o que estava acontecendo, mas nos dias de hoje, o pai que tem uma relação tão próxima com filhos, sente-se mal por passar tanto tempo distante da família e perder momento cruciais de suas vidas.
Darín é tão dedicado com sua família, que consulta a opinião de todos antes de agir, não toma nenhuma decisão sozinho. Durante suas viagens troca diversos e-mails com os filhos, mas com o passar dos anos percebeu que cada vez menos eles respondem com tanta prontidão, começaram a viver suas vidas e manter-se ocupados, mas o contato continua e a união da família está sempre presente.
Ideais
Com seus olhos azuis e o cabelo grisalho, Darín não é apenas um ícone de beleza e talento, ele também está antenado na política de seu país e tem opiniões fortes sobre diversos acontecimentos, bem como indagações polêmicas; é um oposicionista que comenta o que pensa e questiona abertamente ao público e a imprensa.
Apesar de seus questionamentos sobre as decisões e ações do governo, o ator não perde as esperanças pelo país; tem noção que este governo tem feito coisas muito boas e ruins. Mas, suas críticas não são especificamente ao governo e sim à classe política.
Outra questão é que Darín não leva nada ao o extremo. Em uma invasão à sua casa, que teve alguns pertences roubados, ele não reagiu com impulso ou desejou o mal aos jovens infratores, que tinham mais ou menos a idade de seus filhos. Apenas agradeceu que nada de mal, aconteceu com sua família. Lamentou a situação atual do governo que não oferece uma opção melhor de futuro para jovens com baixa renda.
Personagem
A carioca Adriana Mello, formada em economia e cinema, é uma das grandes fãs de Ricardo Darín. Quando pequena, sempre foi muito ligada ao mundo cinematográfico, adorava ir ao cinema nas férias, assistia diversas vezes o mesmo filme, absorvendo cada vez mais conteúdo e entendendo cenas que antes não prestou atenção.
O talento do ator é tanto, que ultrapassou fronteiras e chegou ao Brasil. Em 2001 no Festival do Rio, Adriana viu pela primeira vez um filme do ator argentino, O Filho da Noiva, de Juan José Campanella. O filme trata-se de um homem de meia idade, interpretado por Ricardo Darín, que se encontra em crise por ter que lidar com tantos problemas, sendo um deles a memória de sua mãe que está se desvairando. Adriana se identificou com grande parte do filme, se emocionou bastante, justamente pelo enredo e como Campanella tratou o tema de forma sensível e delicada.
Desde então, a carioca acompanha os filmes do portenho e trabalha como crítica do Botequim Cultural. Seu amor pelo cinema a influenciou na profissão que decidiu exercer, e não se recorda de ter visto nenhum filme desastroso de Darín. Infelizmente ainda não viu nenhuma peça dele, mas ainda há tempo e esperanças.
10.07.15

A cultura do cinema
Filmes podem fazer parte da educação
Por: Martha Amorim
Encontros que acontecem até mesmo em faculdades e escolas públicas, tem o objetivo de ensinar por meio da arte. A simplicidade do local onde algumas pessoas se reúnem, seja uma ou duas vezes por mês, é a representação da mais pura vontade de ver um filme e descobrir o que mais, além de entretenimento, podemos aproveitar dele. O ambiente hospeda um aconchego com apenas o necessário para reproduzir o filme e isto é o suficiente.
Assistir um longa pode nos trazer um conhecimento inimaginável. Há muito mais do que apenas o entretenimento; uma cena pode transportar o espectador para um mundo paralelo, e nele descobrir a ficção e a história ali contida. Com este intuito, são feitos projetos chamados Cineclubes. Um deles, criado em 2008 pela professora, cineclubista e produtora cultural, Carolina Lima e um grupo de colegas, ganhou o nome “Cinema (d)e Horror”, “fazíamos no museu da Imagem e do Som sessões quinzenais de filmes de arte que despertassem a reflexão do espectador sobre alguma questão da cultura /sociedade”, lembra, com um sorriso nos lábios, a professora.
Existe uma tendência de utilizar a visão integral do cinema como mídia educativa. Este procedimento, destaca os aspectos culturais, históricos, literários e políticos nos filmes. A partir disso, o cineasta Willian Augusto complementa firmemente falando sobre as responsabilidades sociais que o cinema exerce, contando histórias desde fictícias até documentais, “o cinema agrega todas as outras artes criadas pelos humanos. Assim, ele não existe apenas para entreter ou ‘encantar’, e sim para fomentar a história da sociedade da qual ele faz parte, contar e registrar sua história através de imagens, textos, sons, simbolismos, semióticas e percepções.”
A cultura que um filme carrega é o reflexo da sociedade. Em um primeiro momento o longa é apenas um produto, que lucra ao contar uma história original. Após algum tempo de análise, é possível captar detalhes que antes passaram batido. O voluntário da Associação Centro Cineclubista de São Paulo (Cecisp), Diogo Gomes dos Santos reflete, com uma das mãos sobre o queixo, “um filme trás sempre consigo, uma memória de um povo, de um tempo, sua língua e seus problemas sociais, então ele é uma forma de expressão de um período, que vivemos e que expressa esta realidade. [...] tem elementos o suficiente para ser utilizado como uma ferramenta de informação. Neste sentido, ele é o retrato da nossa realidade, da nossa cultura.”
A prática de ver filmes pode ser tanto uma diversão, como uma aula expositiva. A pedagoga Jamile Coelho concorda que o cinema pode ajudar na educação e na cultura da população e maravilha-se, “o cinema é um excelente veículo de educação, porque contar histórias é algo que mexe com a vida de todas as pessoas. Todos se identificam com alguma coisa da história do outro e o cinema trabalha com recursos de imagem, música e histórias, explorando todos os estilos visuais, auditivos e sinestésicos, de aprendizagem e mexendo muito com as emoções.”
Uma quantia insuficiente de filmes nacionais circulam nas salas de cinema de todo o Brasil. Muito destes, não são admirados pela população ou mesmo são desconhecidos pelo difícil acesso. Assim o acervo é deixado para as traças matarem sua fome, ao invés do brasileiro matar seu desconhecimento. Carolina Lima suspira, “o cinema, assim como a literatura ou as outras artes, tem a função de educar o olhar do sujeito para o mundo, sensibilizar e aguçar seu senso crítico. O cinema forma o imaginário da sociedade contemporânea, por isso é muito importante que os filmes brasileiros circulem mais pela nossa sociedade, para que não predominem na nossa cultura valores exclusivamente internacionais. Precisamos (re)conhecê-la.”
Sendo assim, o debate é essencial para esclarecer dúvidas e estimular reflexões sobre o filme. Há todo um planejamento para produzir um longa. Por trás de toda cena, há um propósito, as luzes, a fotografia, linguagem, narrativa, gramatogia, estética e etc. Com isso, é impossível perceber todos os detalhes de cara, por isso são feitos debates após as sessões nos cineclubes. De acordo com Diogo dos Santos, “é como ler um livro e comentar com o seu colega ou um professor que tem uma formação para te dar elementos a mais, que você não percebeu em uma leitura. O debate ajuda a mostrar todos estes aspectos para as pessoas”, diz ele num tom de voz explicativo.
Ao estabelecer um meio que contribui para a mudança social, o cinema se torna um instrumento educativo cheio de potencialidade. Assistir um filme e discuti-lo com um colega, é como abrir as portas para o conhecimento. É a maneira mais simples de compreender a realidade, através da análise de um filme.
10.12.15
A história do Bom Retiro atravéz da pluralidade de etnias
A convivência harmoniosa de judeus e coreanos e as adaptações com a chegada dos
Por: Martha Amorim
O Brasil é conhecido como um país de muitas culturas e muitas tradições. Em nossa história, a imigração de estrangeiros foi responsável pela diversidade que hoje encontramos, resultado da vinda de muitas famílias em busca de uma opção de lar para recomeçar a vida. Os últimos picos ocorreram durante o século XX e XXI. É de conhecimento geral, que a cidade de São Paulo é resultado da miscigenação de diversos povos que vieram atrás de esperança e oportunidade de um futuro melhor. Cada bairro que compõe a cidade, representa uma história e uma cultura, que com o tempo se regenera e se adapta à etnia presente. O bairro Bom Retiro localizado na parte central da cidade de São Paulo traz consigo muito além do que só uma história, traz uma conquista.
No começo do século XX o bairro Bom Retiro foi o destino e abrigo dos judeus, primeiro vieram os da Rússia, depois da Polônia, de Israel e em seguida os países restantes da Europa. O bairro pertenceu por muitos anos aos judeus, que lá chegaram de navio e depois trem, descendo na Estação da Luz. Se acomodaram, e foram em busca de uma casa e um emprego. A comunidade judaica tem uma forte característica de ajudar o próximo, em especial os seus conterrâneos, devido sua história e tudo que sofreram. Na Rua Newton Prado, tem a Instituição Beneficente Israelita TenYad (Ten - dar; Yad - ajudar), que é uma das mais antigas do bairro e tem como intuito ajudar a colônia judaica. Oferece todo o tipo de auxílio: alimentos, roupas, dinheiro, emprego, casa e enxoval para noivas. O Sr. Alberto Benhaim veio sozinho de Marrocos para o Brasil, ajudou na construção do bairro e hoje com 87 anos, viúvo, sozinho e com diabetes, recebe ajuda e apoio desta Instituição, como uma refeição diária entregue em sua casa, hospedagem e companhia nas festas religiosas.
Josef Benhaim, filho do Sr. Alberto com sua esposa brasileira, é conhecido por todos como Zé. Hoje morador do bairro de Higienópolis, contou em detalhes sua infância e juventude enquanto passeávamos pelas ruas do Bom Retiro. A cada três quarteirões ele esbarrava em alguém conhecido daquela época. Um exemplo é dona Marli, que foi sua vizinha e hoje é diretora da Escola Renascença; a encontramos na Rua da Graça, em frente ao Memorial da Imigração Judaica. A dois quarteirões dali, fica a Escola Talmud Thorá na rua de mesmo nome, onde ele estudou e passou a maior parte de sua infância. Logo em frente, seu avô tinha uma alfaiataria; e nesta mesma rua, encontrava-se o médico da família, algumas casas adiante ficava o Movimento Juvenil Ichud Habonin (União dos construtores) lugar de recreação e estudo religioso; exatamente ao lado do Instituto tinha uma Sinagoga Ortodoxa, de judeus extremamente religiosos. Ao lembrar de sua infância Zé dá uma breve risada e comenta "era algo contraditório, no instituto íamos de shorts, camiseta, ficávamos brincando e fazendo algo que teoricamente não se podia, e ao lado, estava esta Sinagoga frequentada por meninos de calça e camisa social, todos muito sérios"; Foi com um pouco de melancolia que constatamos que muito dos lugares não existem mais ou mudaram para outro bairro, principalmente para o Higienópolis, e por fim comentou: “mas a escola continua, hoje é um colégio apenas de garotas, onde minha filha estudou."
A influência dos imigrantes no local é tanta, que cada colônia recebeu reconhecimento por sua contribuição para a formação do bairro. Os judeus foram homenageados com algumas ruas, como a Rua Tocantins que passou a ser chamada de Rua Talmud Thorá, que significa “Ensino da Thorá”, ou seja, Pentateuco composto por 5 livros do Antigo Testamento; e a Rua Lubavitch, antiga Rua Correia dos Santos, que recebeu o nome em homenagem ao primeiro grande rabino (líder espiritual), conhecido como Rebe de Lubavitch. Os coreanos hoje já estão estabelecidos no bairro inclusive com algumas Igrejas Católicas Orientais, como a Igreja Missionária Oriental de São Paulo, outras conquistas vieram através de seus negócios espalhados no bairro, desde culinária típica até o comércio de roupas em atacado.
O Bom Retiro é composto por dez Sinagogas. O número é grande pois a cada leva de imigrantes judeus que chegavam no Brasil, construía-se uma nova. Apesar de ser uma única religião, existem pequenas diferenças na forma como se reza e se profere as diferentes melodias. Há várias correntes, da ultra ortodoxa até a ultra reformista, além disso, cada judeu prefere ficar próximo aos seus conterrâneos.
A maioria das Sinagogas do bairro passaram por uma mudança no visual, foram construídos muros, que esconde um pouco a beleza extraordinária de cada uma. O muro representa uma insegurança que os moradores do bairro tem. Mesmo sendo um local sagrado, teme-se que pessoas desonestas acabem entrando não pela fé e sim por interesse. Este medo pode ser devido a proximidade da Cracolânida, que não está mais concentrada em um único lugar, e sim espalhada por todo o centro, ficando boa parte ao redor da Estação da Luz. Outro motivo de hesitação é a proximidade da Favela do Gato do Bom Retiro.
Nos anos 60 e 70 os imigrantes coreanos vieram para o Brasil para tentar melhorar as condições de vida, uma vez que depois da guerra da Coreia, o país estava devastado e em situações precárias. Ninguém sabia falar português, a grande maioria veio sem dinheiro, alguns com toda a família e outros vieram primeiro para conseguir se estabilizar e depois poder trazer seus familiares, vieram de navio atravessando os oceanos. Patrícia Kim foi um desses imigrantes, e ao falar sobre o assunto recorda, "eu mesmo me lembro como o mar era agitado apesar da pouca idade ." Nascida na cidade de Seul da Coreia do Sul, hoje possui uma loja de roupa chamada Hidrogênio, há 25 anos na Rua Aimóres, e comenta como foi sua acomodação no início, "a adaptação foi extremamente difícil no começo, o Brasil é oposto da Coreia em termos de clima e o tipo de culinária. Mas o povo brasileiro é muito caloroso e com certeza isso ajudou bastante no início."
Os coreanos iniciaram sua entrada no comércio oficial do Bom Retiro e do Brás, com a venda de roupas artesanais, nas ruas. Depois passaram a ocupar os espaços deixados pelos judeus, fazendo um esquema de pronta entrega, em que a confecção deixava pronta as roupas sem precisar fazer um pedido antecipado. Os coreanos introduziram a venda de atacado para a comercialização do bairro e da cidade de São Paulo, Patrícia Kim relata sua experiência, "creio que os coreanos colaboraram bastante para deixar a moda mais acessível no Brasil pois antigamente só existia roupa básica ou de marcas mais caras, os coreanos conseguiram fazer roupas de moda com custo baixo para a população mais carente no início, e depois para as várias camadas da população conforme a expansão e crescimento das confecções ", assim conclui que a história da confecção atual brasileira está ligada aos imigrantes coreanos.
Ainda hoje há a entrada de imigrantes coreanos no Brasil, em busca de uma oportunidade de trabalho. Brian Lee de 19 anos, veio para o Brasil com sua mãe em 2012, em busca de um recomeço. Sua mãe Sun Hee conseguiu um emprego em uma cafeteria apenas seis meses atrás, e assim pôde trazer seu filho mais novo para morar com eles. Lee comenta que quando chegou no bairro, não teve muita dificuldade para achar os lugares, pois no Bom Retiro as pessoas falam sua língua e há mercados, restaurantes e lojas unicamente coreanos. Apesar da grande quantidade de mercadorias típicas da Coreia, Lee confessa que os produtos no seu país são melhores, mas que ele já provou a comida brasileira e é fã de feijoada. A respeito da comida, Patrícia Kim esclarece, "os coreanos ainda comem a comida típica, mas gostam bastante de comida brasileira e italiana. A nova geração é mais eclética e come de tudo, eles têm mais acesso do que os primeiros imigrantes".
Atualmente, o bairro que pertenceu por muitos anos aos judeus, está esvaziando, dando lugar a novas colônias como a coreana e a boliviana. Ao chegar na Estação da Luz, os judeus foram atraídos pelo novo bairro em desenvolvimento, Bom Retiro. Assim eles chegavam, se acomodavam, começavam a trabalhar, ganhavam dinheiro e a partir do momento que começavam a juntar algum capital, migravam para outros bairros, como o Higienópolis, Pinheiros, Vila Mariana e Perdizes. Ao passear pelas ruas conhecidas, é possível notar sinais desta realidade. Um exemplo significativo é a Escola Renascença, inaugurada em 1922 no Bom Retiro, onde cresceu para mais de 2 mil alunos, se estabilizou, ampliou para Higienópolis, mas que hoje mantém apenas esta unidade. Encontramos também exemplos de lugares tradicionalmente judaicos, que mudaram sua essência, como o restaurante, antes chamado Buraco da Sara, que era o ponto de encontro para os judeus, e hoje chamado de Bistrô da Sara, que mudou a ponto de servir a única coisa que o judeu não pode comer, carne de porco.
Apesar do esvaziamento judaico no bairro, ao caminhar pelas principais ruas, Prates, Graça, José Paulino, Três Rios e Guarani, ainda é possível achar algumas lojas antigas de judeus, que presenciaram muita história e que continuam sobrevivendo à nova realidade. Na Rua Prates, encontramos a loja Derby Esporte Ltda. pertencente ao David e sua esposa Rebeca Sznifer, estão neste ponto desde 1993, mas que foi inaugurada na Rua Guarani em 1973. David é um antigo amigo de Zé, os dois fizeram parte do Movimento Juvenil Ichud Habonin. David é um senhor carismático, extrovertido, muito simpático e que não perde tempo para contar suas piadas no meio dos assuntos. Seus clientes são frequentes, alguns são amigos, outros são os coreanos, que estão muito presentes no bairro, outros bolivianos, as vezes um estrangeiro, ou um curioso, ou até mesmo uma estudante de jornalismo, a procura de material para sua matéria. Há toda uma diversidade. Com tom de conquista Sznifer comenta "nesta ultima copa de 2014, a minha loja foi a loja esportiva que mais vendeu camisa da seleção da Coreia", logo em seguida contou uma piada e caiu na gargalhada.
Nos dias de hoje, a presença dos bolivianos está cada vez forte na cidade de São Paulo, principalmente no Bairro Bom Retiro, que é o grande centro de empregos. Os imigrantes vem em busca de trabalho, aumento salarial e uma vida melhor, mas nem sempre conseguem o que esperam . Eduardo Malon veio sozinho para o Brasil em 2001, mora no mesmo lugar que trabalha como costureiro, mas o que gosta mesmo de fazer é ser locutor de rádio em um programa que passa todo final de semana. Com um sorriso no rosto Malon comenta outra atividade essencial na sua rotina, "ao contrário de muita gente que vive para trabalhar, eu trabalho para viver, para conseguir ter tempo de fazer as coisas que eu realmente gosto, como ir todos os finais de semana na feira dos bolivianos, aqui perto".
O bairro Bom Retiro além de disponibilizar um amplo comércio de roupas em atacado, tem muita história e cultura a oferecer para a cidade de São Paulo. O bairro que abrigou inúmeras famílias estrangeiras, foi a esperança e oportunidade de muitos, para recomeçarem suas vidas. É o lugar em que é possível achar e conhecer comidas típicas judaicas, coreanas, árabes e armênias. Apesar do esvaziamento da cultura judaica, ainda é possível encontrar lojas e restaurantes pertencentes aos imigrantes e descendentes de judeus. Um bom exemplo é o FalaFel da Malka, conhecido como o melhor Falafel da Capital. Sra Malka criou o restaurante há 40 anos, hoje é gerenciado pela sua filha El Al (que tem seu nome em homenagem a companhia aérea de Israel, a mais segura do mundo por conta dos terrorismos, El - Deus, Al - acima; só Deus acima do avião). As duas e seus familiares vieram de Israel no começo do século XX. Independentemente das diversas culturas estrangeiras que passam e se instalam no bairro, uma não elimina a outra. É a pluralidade e a variedade de etnias que definem o bairro como ele é hoje.
A coragem é vermelha e enfermeira
Por: Lillian Barbieri e Martha Amorim
Segurança. 120 horas por mês. Cinco plantões. Inseguro. Insalubre. Trânsito, feridas abertas, sangue, barulho, correria. Primeiros socorros, resgate, ambulância. Suspiros profundos e pesados, olhos nos olhos. Tempo. Alívio, calma, tranquilidade. Descanso, ainda que breve.
Responsável por cobrir a maior área de São Paulo, a região sudeste, o Corpo de Bombeiros do Posto do Butantã 4GB é enorme. As paredes vermelhas que rodeiam o quartel englobam uma diversidade de veículos inimagináveis. Por questões de segurança e por ser um quartel próximo da vizinhança, que recebe excursões escolares frequentes e vítimas agradecendo a eficácia dos bombeiros, não temos ali a presença de um cachorro da raça dálmata, como mostram os filmes ou séries de televisão. Ainda assim, o ambiente é parecido, todo feito de concreto, brusco, quase combinando com a fisionomia grande dos homens que trabalham ali. Entre as várias salas, podemos encontrar civis e militares cumprindo seus deveres, descansando nos quartos reservados, jogando uma partida de futebol na quadra para relaxar e participando de treinamentos.
A sirene toca, a atenção de todos é desviada ao alto falante que reproduz a mensagem de urgência. Um suspiro aliviado de novo, não é nossa vez... ainda. Parece estranho entender o porquê uma pessoa, em sã consciência, submetese a esse tipo de estresse constante, mas podemos seguir a lógica simples de que as pessoas têm um dom.
O caminhão vermelho dos bombeiros, tão bem retratado em desenhos infantis, é bem próximo daquilo que sempre imaginamos. Mas o astro da vez é a Unidade de Transporte Avançado (USA), que pode não ser tão imponente quanto o Cavalo Mecânico (aquele que joga água e apaga todo o fogo) – mas que com certeza marca sua presença – são transportados um enfermeiro, um médico e um bombeiro.
O enfermeiro é Mauro Ribas, que com suas palavras inexplicavelmente confortantes, deixou claro que não se contenta em ser medíocre. “Se eu errar, meu erro gera consequências muito grandes, não só para a pessoa que pode vir a morrer, mas para todo o ciclo familiar dela, que vai perder alguém, então eu não posso errar. Eu não me contento com ser ruim. Eu tenho que ser o melhor, não por mim, mas para a pessoa".
O trabalho de salvar as pessoas é nobre. Algumas histórias deixam a boca de Mauro como se dançassem no ar de tanta felicidade com a qual as palavras são proferidas. O enfermeiro deixa claro, como água cristalina, que existem sim casos com finais felizes, e nem sempre são poucos, ao que pode parecer. Por exemplo, o caso de Livia Kawabata, que foi atropelada enquanto voltava de bicicleta da aula de inglês, deixando-a como um “pretzel humano”. Um acidente feio, que foi digno da frase “por onde eu começo”, que resultou, depois de alguns meses, em bolo e festa dentro do Quartel do Butantã.
No entanto, toda nobreza tem seu preço. A sirene toca de novo e, dessa vez, pedindo nossa ajuda. Socorrer aqueles que se acidentam não é apenas ir até o local e limpar a bagunça; de acordo com Mauro, além de lidar com os problemas de sua profissão, é preciso lidar com os próprios dilemas, “você não dorme. É o tempo todo na rua, correndo, com sirene, faça chuva, faça sol, no calor com o macacão, na chuva totalmente molhado. Na rua, no incêndio, em comunidades, em favelas, atendendo vítimas de suicídio, vítimas com distúrbios psiquiátricos, que além de atentar contra a própria vida, pode atentar contra a sua vida”. Ser enfermeiro de ambulância, não é um trabalho simples ou calmo. É o dia todo sujeito à perigos ou acidentes, horas em claro ou um cochilo, como brinca Iara Pereira Alves, supervisora externa da base central do SAMU, "dormir você dorme em casa, aqui você descansa, um olho no peixe e o outro no gato". Tudo pode acontecer em um dia de trabalho e, por isso, nos uniformes há o tipo sanguíneo do enfermeiro, para caso este esteja envolvido em um acidente e precise de intervenção rápida.
Exercer esta profissão não é apenas momentos bons com conquistas, há situações catastróficas que os enfermeiros lidam todos os plantões, como comenta Iara "nem sempre a ocorrência é o que você espera, eles ligam dizendo uma coisa, e quando chegamos no local, é algo completamente diferente". São desastres e casos que marcam qualquer um, e que se não forem enfrentados de maneira correta, podem gerar problemas ao paciente e também aos enfermeiros. Mauro compartilha como tenta se manter estável todos os dias, “depois do ocorrido, você conversa com a pessoa que estava com você, ‘e aí? como foi? o que podemos fazer de melhor na próxima vez?’ conversa e coloca para fora as angústias, o que aconteceu, quando estamos voltando da ocorrência”. É algo que, se feito com costume, pode prevenir muita inquietude no futuro. Pode também, resultar em grandes histórias e até mesmo, em um exemplo.
Algo essencial no trabalho, de acordo com Iara é "saber trabalhar com as realidades diferentes da nossa região", conhecer a área que a unidade trabalha, sendo enfermeiro tanto do Samu, como do Corpo de Bombeiros. Nem tudo é um mar de rosas, às vezes os enfermeiros são obrigados a irem em locais em que correm o risco de vida, podem sofrer violência verbal e até mesmo física. Ao atender a vítima na rua, tem algumas particularidades, como a pressão que os enfermeiros recebem da população, de resolver tudo rápido para não atrapalhar o trânsito, para socorrer o colega ou o parceiro.
Uma dúvida frequente da população e que é importante ser esclarecida, é a diferença e quando ligar para 192 Samu e 193 Corpo de Bombeiros Polícia Militar. Com seu jeito calmo e didático, Mauro esclarece detalhadamente: "atendimentos domiciliares, atendimento clínico de mal estar ou parada cardíaca, todas as coisas que acontecem na residência, transporte inter hospitalar, tudo seria de responsabilidade do Samu. Todo atendimento de rua, trauma, onde há necessidade de uma força pública para gerenciar a ocorrência, onde tem vítima, onde tem violência de trânsito, violência urbana, seria o Corpo de Bombeiros, porque tem o poder de polícia para gerenciar a ocorrência, então acidente de trânsito, atropelamento, ferimento por arma de fogo, ferimento por arma branca, sequestros, suicídio, todas essas coisas que envolvam polícia, boletim de ocorrência, seria do bombeiro."
Aos conhecedores da saga de Harry Potter, a referência será bem acolhida: a ambulância do Samu pode muito bem ser comparada ao Nôitibus Andante, aquele ônibus que afunila para passar entre dois veículos. No trânsito caótico de São Paulo, com a sirene ligada e a pressa constante, a ambulância consegue achar uma saída para chegar ao seu destino o mais rápido possível. Deixando a comparação de lado, o "passeio" pode ser resumido em uma única palavra: adrenalina; o barulho característico dos filmes de ação, o cinto que te segura parcialmente por ser apenas pela cintura, e da buzina grave abrindo caminho e alertando os motoristas de que o sinal pode estar vermelho, mas isso não é impedimento para salvar uma vida e poder, rapidamente voltar à base do Samu para controlar um novo chamado.
Um problema constante na rotina dos enfermeiros do Samu são as macas retidas. Após uma ocorrência, a admissão do paciente no hospital não é sempre tão fácil; na maioria das vezes não há lugar para colocá-lo, sendo obrigado a permanecer na maca, por horas, que podem ser até mais que 24, até conseguir de fato ser admitido no hospital. Assim, a maca fica “apreendida” e a ambulância fica defasada, o que atrasa e atrapalha "os heróis" rumo a uma outra ocorrência. Porém, uma ambulância defasada não é, de forma alguma, uma ambulância inútil. Se ocorrer um incidente nas proximidades, os enfermeiros podem muito bem ir ao local e prestar os primeiros socorros, até que uma outra equipe com maca chegue para socorrer e transportar a vítima.
Por tratar-se de um local administrativo, a base do Samu localizada na Av. Washington Luiz tem um aspecto calmo, apesar das equipes saírem dali para as ocorrências. O prédio antigo, de três a quatro andares, tem certa similaridade com um hospital ou uma clínica privada. Em sua entrada há um espaço que comporta duas ambulâncias e ao passar por duas portas de vidro esverdeadas, temos à direita um balcão de mármore zelado por um segurança e à esquerda um elevador. O segundo andar, com seu piso de mármore que deixa tudo mais apreciativo, é composto por três salas, uma da supervisão externa, outra da gerência e outra da equipe. Há também um quarto reservado para aqueles que ficam de plantão, com dois beliches.
Espalhadas pela cidade de São Paulo são 65 bases, além das pequenas unidades 24 horas que comportam duas ambulância de prontidão, para quando houver um acidente, e de acordo com a proximidade, irem rumo ao auxílio. A base do Panamby é uma casa humilde de dois andares, bem chamativa pela cor laranja e pelo logo do SAMU, com o 192 bem grande em sua extremidades. Há uma escadaria do lado de fora para chegar no segundo andar, onde há um espaço de lazer, com tv e dois beliches em cada quarto, um masculino e um feminino, armários para os pertences de cada plantonista, uma mesa redonda pequena e uma pia com um microondas, nada de fogão para não pegar fogo. É um lugar simples, apenas um pitstop.
Apesar das dificuldades da profissão, para os enfermeiros, exercer este trabalho vai muito além do cheque assinado que se recebe no final do mês, é algo que te faz percorrer distâncias quase inviáveis para salvar vidas, que em um primeiro momento não faziam a mínima diferença, mas que agora são o mundo inteiro. “Eu sou rua, eu gosto dessa adrenalina(...) eu não sou de ficar em casa não!”, finaliza Iara, com seu característico sorriso no rosto e com toda a graça de quem se auto intitula “samuzete”.
15/11/16

Victor Brcheret Filho fala sobre o aproveitamento do potencial hidrelétrico da Amazônia
Matéria publicada no site Instituto de Engenharia
Por: Martha Amorim
Neste mês que aconteceu, no Instituto de Engenharia, o Workshop Lições aprendidas no processo de licenciamento ambiental durante a implantação e operação de grandes hidrelétricas na Amazônia, Victor Brecheret Filho, vice-presidente do Instituto de Engenharia, fala sobre o aproveitamento do potencial hidrelétrico da Amazônia e as lições que devem ser melhor compreendidas sobre o potencial hidrelétrico brasileiro.
Brecheret começa destacando que hoje, cinco grandes obras estão na sua etapa final e que “é uma boa oportunidade e houve um aprendizado muito grande. Hoje em dia se sabe bastante como tratar e o que vai acontecer com o meio ambiente e com os rios. O Brasil aprendeu muito com isso e sabe lidar com as exigências internacionais."
Apesar das condições difíceis e adversas, a respeito do território e as relações com as comunidades indígenas e locais, foi possível a engenharia realizar obras com grandes índices de sucesso, como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio. Porém, Brecheret ressalta a importância do verdadeiro aproveitamento do potencial hidrelétrico da Amazônia.
Ele explica que “o mundo hoje é energívero, ele devora todos os recursos e todos os potenciais energéticos que existem na terra, e cada vez mais a demanda de energia se faz presente”. Dessa maneira, é necessária a busca da energia onde está disponível, e que isso se faça de maneira racional.
O pensamento segue com o exemplo de como a ocupação da Amazônia começou de maneira ambiciosa. "Com usinas muito grandes, houve uma transformação para pior e o Brasil se deu mal, pois depois de um tempo, estas foram mutiladas. Independente das capacidades instaladas das usinas terem sido mantidas, a energia gerada em cada uma delas foi muito reduzida, por causa do reservatório, também reduzido."
Foi feito um grande investimento, que não obteve os resultados desejados. O Brasil é ou era um País privilegiado com o potencial hidroelétrico disponível, por isso era de se esperar resultados mais promissores, tal como a construção da hidrelétrica Itaipu.
A busca do aproveitamento dos potenciais na região amazônica ocasionou algumas insurgências, como a probabilidade das comunidades, sítios ecológicos e tribos serem prejudicadas. Este alvoroço acabou criando atrasos e subaproveitamento desse potencial.
A conclusão é que o Brasil aprendeu bastante, mas o aproveitamento total do potencial não foi satisfatoriamente desenvolvido. O Brasil tem o privilégio de usar a energia limpa, caso esta oportunidade não seja feita de maneira correta, será necessário à busca de outra fonte de energia, muito mais poluente ou perigosa, como a energia nuclear.
28/06/17
Livro - The Electrical Transmission Of Energy, publicado em 1904, Memorial da Engenharia
Sinopse publicada no site Instituto de Engenharia
Por: Martha Amorim
Nesta semana, no dia 29 de maio, segunda-feira, foi o dia mundial da energia, e em homenagem, o livro escolhido da semana é a obra “The Electrical Transmission of Energy: a manual for the design of electrical circuits” foi publicada em 1904, pelo engenheiro mecânico e elétrico, Arthur Vaughan Abbott.
O livro foi feito primeiramente dos aspectos da experiência do autor e seu esforço ao coletar e organizar de forma acessível e convincente, os dados necessários à concepção científica e à dosagem dos circuitos eletrônicos.
Os primeiros capítulos são dedicados a um esboço de circuitos e a uma indicação dos princípios e leis que regem os Condutores e Isoladores. Depois, segue com uma discussão dos métodos de construção das linhas aéreas e a descrição de condutas subterrâneas e condutores.
O autor acredita, do seu ponto de vista da experiência, a utilidade da informação que o setor de elétrica na engenharia pode encontrar o valor na construção prática.
O livro faz parte do Memorial da Engenharia do Instituto e está disponível para consulta apenas na versão em inglês, na biblioteca, em nossa sede.
31/05/2017
Livro - Saneamento de Campos, publicado em 1903, Memorial da Engenharia
Sinopse publicada no site Instituto de Engenharia
Por: Martha Amorim
A obra Saneamento de Campos foi publicada no ano de 1903, pelo Engenheiro Civil, F. S. Rodrigues de Brito.
O livro trata do saneamento de campos do Estado do Rio de Janeiro. O prefácio começa contando sobre o Sr. Dr. Benedicto Gonçalves Pereira Nunes que assumiu a presidência da Câmera Municipal de Campos, em 1901, e como ele se tornou conhecedor da depressão sanitária do meio, por ser vinculada às condições naturais da zona.
Pereira Nunes era reconhecido por ter conhecimento da necessidade de sanear o município insalubre, que apresentava a mais grave e inadiável em seu centro vital. A aceitação pública do seu programa e a execução de algumas obras componentes parecia depender apenas do concurso do sentimento adjuvante de amor pela cidade natal e hospedeira, e do louvável empenho coletivo para que se empreendesse firmar corajosamente as bases sanitárias das quais depende a prosperidade local.
E desta maneira, como foi à pretensão de dar definitivas soluções a problemas que só poderão ser convenientemente resolvidos atendendo à situação local por ocasião da execução, e o tratamento definitivo dos problemas de águas pluviais da reforma de esgotos imprestáveis e da péssima distribuição d’água potável.
O livro faz parte do Memorial da Engenharia do Instituto e está disponível para consulta na biblioteca, em nossa sede.
07/06/2016